Diferentes visões em busca de diálogo

Depois de séculos de distanciamento e de confronto, faz-se necessário um diálogo entre os mais diversos campos do conhecimento 

Giulio Meazzini (artigo originalmente publicado na revista Cidade Nova)

 
Platão e Aristóteles, os maiores filósofos da Antigüidade, morreram há aproximadamente 2.400 anos e existe quem diga que, desde então, o pensamento humano não fez nada mais do que comentar as visões desses gigantes. Efetivamente, não são muitos os pensadores que tiveram a audácia e a capacidade de elaborar uma completa descrição do mundo, propondo uma explicação coerente (e convincente!) sobre o funcionamento e o significado do cosmo, incluindo o homem. Uma explicação capaz de esclarecer também a relação entre homens e deuses.

Como afirmava Marco Túlio Cícero (106 a.C. – 43 a.C.), grande orador romano, realmente ³não existe nenhum povo tão rude e feroz que, embora ignore qual Deus se deva adorar, não venere algum².

Chegar ao conhecimento sobre a vida e o cosmo recebeu um impulso decisivo no momento em que irrompeu na história Jesus de Nazaré com a sua revelação da essência de Deus que é Amor.

Investigadores da verdade

A questão religiosa não ocupa apenas uma parte de nossa vida, mas incide sobre todos os aspectos da existência. Busca responder a questões que interessam a toda a humanidade como, por exemplo, o significado da vida, da dor e da morte; os valores e a natureza da história e do progresso.

Com a vinda de Jesus, a procura da verdade recebeu uma força decisiva. Nessa linha, um dos pensadores que se destacaram, nos séculos IV e V da era cristã, foi Agostinho (354-430), teólogo e bispo da cidade de Hipona, na África romana. Tendo vivido num período marcado por heresias e invasões dos povos bárbaros, ele colocou as bases da Europa cristã que nasceu das cinzas do Império Romano. Ele fez isso escrevendo obras que compõem um monumento de sabedoria ³para dirigir o intelecto e os sentimentos dos homens em direção a Deus². É o maior entre os grandes teólogos dos primeiros séculos do cristianismo, conhecidos como Padres da Igreja.

Quase mil anos depois, em plena Idade Média, Tomás de Aquino (1225-1274), na sua obra monumental, integrou o patrimônio cultural grego com a mensagem cristã, mostrando como a felicidade do homem – ser sem igual na criação – consiste em poder encontrar Deus face a face, por meio do conhecimento oferecido pela razão e pela Revelação trazida por Jesus (fide illustrata), e que contribuem para conhecer Deus, o homem e a criação. A respeito de questões cosmológicas específicas, ao invés, Tomás de Aquino pontualiza ³que se comete um erro quando se afirma ou se condena em nome da fé aquilo que não é de sua competência². Ele foi definido como um gênio em movimento, um espírito em constante atenção, em busca da sabedoria, inexorável defensor e amigo da verdade.

Investigadores do conhecimento

³A própria beleza da criação é um grande livro… O céu e a terra gritam para ti: eu sou obra de Deus², escreveu Agostinho. Os Padres da Igreja sempre reconheceram que a primeira manifestação oferecida por Deus aos homens, simples e doutos, é a própria natureza. E isso, sempre, foi um grande estímulo para o estudo do cosmo.

No final do século XVI, Galileu Galilei (1564-1642) foi o primeiro a estabelecer a necessidade e as modalidades de uma observação direta, precisa e refletida dos fenômenos naturais, reservada, porém, a cientistas, não a teólogos. De fato, ³o livro da natureza é escrito na linguagem da matemática… e pode ser lido somente por aqueles que conhecem essa linguagem².

Pela primeira vez, o estudo da natureza foi separado da reflexão da teologia e da filosofia, mesmo se não pode haver contradições entre os resultados finais desses dois níveis de conhecimento. Isso porque, segundo Galileu, ³tanto a sagrada Escritura quanto a natureza procedem igualmente do Verbo Divino, a primeira por inspiração do Espírito Santo, e a segunda por obedecer fielmente às ordens de Deus².

Em 1642 ano em que morreu Galileu, nasceu Isaac Newton (1642-1727), o gênio que sintetizou as intuições de Galileu numa única teoria matemática, capaz de explicar fenômenos não ligados aparentemente entre si, tanto na Terra quanto nas estrelas mais distantes. Sobre o palco de um espaço e de um tempo fixos e absolutos, o grande cenário do cosmo é submetido a leis e constantes universais, compreensíveis e mensuráveis pelo homem com base na observação experimental. As descobertas científicas de Newton dão início a um longo período no qual a clamorosa capacidade da ciência de prever e controlar uma quantidade crescente de fenômenos coincide com uma retirada progressiva da teologia. Já que a hipótese Deus não é mais necessária, a teologia torna-se inútil.

Nos anos sucessivos, com René Descartes (1596-1650) e, principalmente, com Kant (1724-1804), a filosofia coloca em discussão e redefine os fundamentos do conhecimento; considera a razão como único instrumento à disposição do homem, com as suas potencialidades e os seus limites.

No século XIX, Charles Darwin (1809-1882) dá um grande impulso para a separação entre conhecimento científico e religião. Ele explica a variedade das espécies presentes na Terra, sem recorrer a um Deus criador; mas somente à ação da seleção natural. O próprio homem é incluído – como todos os animais – na descendência dos ancestrais que viveram em épocas remotas sobre a Terra. A partir desse momento, o paradigma da evolução entra em inúmeros âmbitos não só da ciência, mas também da sociedade humana, contribuindo fortemente para a laicização do pensamento e da ação cotidiana.

Por fim, no século passado, Albert Einstein (1879-1955) revoluciona a compreensão científica e filosófica do universo com a teoria da relatividade. Ele mostra o universo como o único espaço-tempo de quatro dimensões, ³curvado² devido à presença das massas. No último período da sua vida, busca inutilmente conciliar a sua visão do mundo macroscópico com a mecânica quântica que descreve o comportamento do mundo microscópico. Essa nova mecânica transtorna os fundamentos da ciência, atingindo-a exatamente na pressuposta capacidade de prever e conhecer tudo com precisão.

Einstein, que não acreditava em um Deus pessoal, reflete sobre o fato de ³que aquilo que deveríamos esperar, a priori, é justamente um mundo caótico, totalmente inacessível ao pensamento. Ele confessa a sua imensa admiração pela estrutura do mundo que a ciência tinha revelado até então. Entretanto, o cientista encontra-se diante de ³um alto grau de ordem do mundo objetivo. Esse é o Œmilagre¹ que se reforça muito mais com o desenvolvimento dos nossos conhecimentos. É aqui que se encontra o ponto frágil dos positivistas e dos que se declaram ateus, felizes apenas porque têm a consciência de terem espoliado – com sucesso total – o mundo não só dos deuses, mas também dos milagres².

Rumo a uma nova unidade?

A ciência cumpre o seu papel quando se utiliza de um método que não pode observar e compreender outros âmbitos do conhecimento que não sejam experimentáveis. Por isso, a pesquisa científica deve ser respeitada na sua liberdade e autonomia.

Entretanto, diante dos impetuosos desenvolvimentos da ciência, a reflexão da fé algumas vezes sentiu-se constrangida a contestar a ciência. Mas sempre houve grandes estudiosos religiosos com visões globais. No século XIX, John Henry Newman (1801-1890), teólogo inglês e filósofo, abraça um horizonte muito vasto em suas reflexões. Coerente até o fim no seu amor à verdade, (³em primeiro lugar a verdade²) enfrenta as principais questões filosóficas e teológicas do seu tempo, antecipando alguns dos temas que seriam completamente delineados apenas no século XX. Defende, entre outras coisas, a necessidade de deixar a liberdade de pesquisa para a ciência: ³Para a religião, a liberdade de expressar o pensamento nunca é perigosa; pelo contrário, muitas vezes, é útil. Mas para a ciência, é algo absolutamente necessário².

Ao mesmo tempo, ele se questiona sobre o abandono do cristianismo por muitos, afirmando categoricamente que o verdadeiro motivo da incredulidade não é uma dificuldade da inteligência, mas um defeito do coração, uma secreta aversão aos conteúdos da Bíblia.

No início do século XX, Pavel Aleksandrovitch Florenski (1882-1937), ansioso por alcançar uma síntese entre espiritualidade e cultura, entre fé e pensamento laico, esforça-se por fazer confluir todo o ensinamento da Igreja, numa visão filosófico-científica e artística do mundo. Cientista multiforme, filósofo e sacerdote ortodoxo – morto num gulag stalinista – Florenski almeja atingir a convivência entre verdade, saber científico e mistério.

Florenski recorda-nos, com veemência, que o homem é um ser integral e não pode ser dividido em si mesmo. Deve, portanto, conciliar dentro de si a visão científica e cultural que tem do mundo com as próprias convicções filosóficas e religiosas, e as necessidades afetivas com a exigência de dar um sentido à própria vida. Uma busca que nunca acaba.

Portanto, o problema não é tanto a ciência em si mesma, quanto a responsabilidade de cada homem, de cada cientista.

O futuro da ciência

Um exemplo significativo dessa responsabilidade é o debate existente atualmente entre cientistas e filósofos sobre o futuro da ciência. As ciências, principalmente as biológicas, estão diante de um novo panorama; não somente após terem deposto o homem do vértice da criação, abandonando-o no recanto longínquo de uma insignificante galáxia do universo, mas também depois de terem alterado para melhor tantos aspectos da nossa vida cotidiana.

A teoria da evolução julga que pode explicar muito bem o que aconteceu nos últimos 600 milhões de anos, embora ainda encontre dificuldade em relação ao início da vida bilhões de anos atrás e o conseqüente surgimento dos seres vivos. Nos últimos anos, as neurociências e as ciências cognitivas juntas iniciaram uma exploração bem sucedida do único campo do conhecimento que até agora era domínio exclusivo da filosofia e da religião porque estava relacionado diretamente ao homem. É um estudo que compreende sentimentos, vontade, consciência, responsabilidade, religião e inteligência, entre outras coisas.

Essa linha de pesquisa dividiu os cientistas: há quem considere que a ciência deva fazer tudo sozinha, satisfazendo também a necessidade de as pessoas terem respostas aos porquês de dor, amor, temor etc. Ou seja, segundo eles, a ciência deve substituir a religião, proporcionando soluções rigorosas e objetivas baseadas nos atuais conhecimentos científicos. Desse modo, seriam superadas as desconfianças de muita gente em relação à ciência, que freqüentemente, no seus resultados, contraria as expectativas do bom senso.

Outros cientistas – talvez a maioria – estão amedrontados por esse panorama e temem que a ciência se torne uma espécie de nova religião, provocando apenas a rejeição e o conflito frontal. Para eles, o melhor é fazer com que tudo seja apresentado nos limites de uma simples teoria científica, mostrando-a como tal.

Por fim, entre os filósofos da ciência também há quem deseje uma evolução rápida das religiões de acordo com a lógica darwiniana.

Uma nova síntese

Diante desses desafios, existe a exigência de uma nova síntese. É uma exigência percebida, de modo especial, por quem crê que o conhecimento obtido por meio de muitos percursos da razão não esteja em contradição com o conhecimento oferecido pela Revelação à razão de quem crê. Pode-se buscar, então, a humanização da ciência.

Pode-se ainda propor que, após terem se separado e combatido, as várias disciplinas voltem a dialogar. Dessa vez, porém, em espírito de serviço, a fim de oferecer ao homem a unidade requerida pelo saber. Enfim, pode-se almejar que, 800 anos depois, surja um novo Tomás de Aquino, capaz de dar continuidade àquela síntese iniciada por Florenski. Mas, em tempos nos quais a humanidade experimenta de maneira penosa novos modos de se comunicar em rede para constituir uma única aldeia global, ou melhor, uma única família humana, a resposta adequada poderia ser outra: não apenas um Tomás de Aquino; todavia, mais de um, dois ou mais juntos. Pessoas que busquem uma nova unidade do saber, que saibam antes de tudo viver a comunhão entre si. Comunhão de conhecimento e de vida, de inteligência e de amor.

O conhecimento no tempo

Platão (428-7 a.C.-348-7 a.C.) e Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.)

Não são muitos os pensadores que, como Platão e Aristóteles, tiveram a audácia e a capacidade de elaborarem uma completa descrição do mundo, propondo uma explicação coerente (e convincente!) do funcionamento e do significado do cosmo, incluindo o homem.

 Marco Túlio Cícero ( 106 a.C.-43 a.C.)

³Não existe nenhum povo tão rude e feroz que, embora ignore qual deus se deva adorar, não venere algum.²

Agostinho de Hipona ( 354-430)

O grande teólogo do IV século escreveu obras que compõem um monumento de sabedoria “para dirigir o intelecto e os sentimentos dos homens a Deus”.

Tomás de Aquino (1225-1274)

Para o téologo italiano ³a felicidade do homem consiste em poder encontrar Deus face a face por meio do conhecimento oferecido pela razão e pela Revelação trazida por Jesus.²

Galileu Galilei (1564-1642)

Com ele, pela primeira vez o estudo da natureza foi separado da reflexão teológica e filosófica, embora, segundo Galileu, ³tanto a Sagrada Escritura quanto a natureza procedam igualmente do Verbo Divino².

Isaac Newton (1642-1774)

As descobertas científicas de Newton dão início a um longo período no qual a capacidade da ciência de prever e controlar fenômenos naturais, coincide com uma progressiva retirada da teologia.

Kant (1724-1804)

Sua filosofia coloca em discussão fundamentos do conhecimento do conhecimento, considerando a razão como único instrumento à disposição do homem.

John Henry Newman (1801-1890)

Enfrentando as mais importantes questões do seu tempo, Newman afirma que o verdadeiro motivo do desprezo à teologia é uma secreta aversão dos cientistas aos conteúdos da Bíblia.

Charles Darwin (1809-1882)

O paradigma da evolução instituído por Darwin entrou em inúmeros âmbitos da sociedade humana, contribuindo fortemente à laicização do pensamento e da ação cotidiana

Albert Einstein (1879-1955)

O cientista austríaco revoluciona a compreensão científica e filosófica do universo com a teoria da relatividade. Ele mostra o universo como o único espaço-tempo de quatro dimensões, ³curvado² devido à presença das massas.

Pavel Aleksandrovitch Florenski (1882-1937)

Para Florenski, o homem é um ser integral e deve conciliar dentro de si a visão científica e cultural que tem do mundo com as próprias convicções filosóficas e religiosas.

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