A Proposta da Fraternidade e os Meios de Comunicação – Primeira Parte

(por Marcello Benites)

Este texto é uma obra aberta. Portanto, estamos abertos a contribuições e possíveis correções. Solicitamos, inclusive, que quem quiser, por favor, manifeste-se. Isso resultaria numa saudável discussão entre os membros do nosso grupo.

Fazemos ainda a ressalva que este material não se trata de um texto oficial de Net One, nem do Movimento dos Focolares. E nem mesmo pretende expressar a opinião de todos os membros do grupo Frat&Mídia.

Segunda parte de Reflexão desenvolvida em encontro do Grupo Frat&Mídia, em São Paulo (3/6/6 e 1/7/6)

 

Aspectos teórico-técnico-profissionais e estético-ético-morais dos textos básicos Net One (Parte 2)

 

 Retomamos no dia de hoje (1/7/6) o final da nossa fala no encontro de 3 de junho.

Ao falar dos aspectos teórico-técnico-profissionais e estético-ético-morais dos três textos básicos de NetOne*, não o faremos necessariamente nesta ordem, mas na seqüência em que eles vão aparecendo em cada um dos discursos. Trata-se de uma enumeração quase literal, o mais fiel possível. Entretanto, as afirmações raramente foram colocadas entre aspas para possibilitar uma maior liberdade na preparação deste discurso. Aqueles que precisarem de citações literais podem recorrer diretamente aos textos.

 

 “O Carisma da Unidade e os Meios de Comunicação”

 

Chiara afirma, em “O Carisma da Unidade e os Meios de Comunicação”, que no desenvolvimento dos Meios de Comunicação Social (MCS) podemos identificar um passo novo no plano evolutivo da humanidade, como uma irrefreável tendência que vai da complexidade ao uno, da fragmentariedade à busca da unidade em tempo real.

Em seguida, ela traça um panorama sobre a situação mundial da comunicação. Embora não esquecendo o que há de positivo, ela enumera alguns problemas:

1) A globalização arrisca homogeneizar as culturas, sufocando suas riquezas;

2) O relativismo ético mistura mensagens abalizadas com outras superficiais ou facciosas;

3) A espetacularização da existência instrumentaliza os sofrimentos e a vida privada;

(No dia 3/6/6 viemos até aqui)

4) Existe um excessivo clima de competição dentro das estruturas produtivas dos meios de comunicação;

5) Ocorre uma invasão excessiva na vida do público. Essa afirmação se articula em duas considerações:

a) uma, já acenada no terceiro problema enumerado, é a invasão da vida privada, e

b) a outra seria o excesso de informação e mensagens transmitidas ao público.

 

Lubich faz também uma análise da recepção das mensagens dos MCS. Diz que os eles são hoje:

1) Acolhidos acriticamente;

2) Ou recriminados devido à amoralidade, à violência, à superficialidade que propõem;

3) Ou ainda superestimados como infalíveis instrumentos de poder, como se fossem novos ídolos de uma humanidade sem outras certezas.

 

Chiara também indica aspectos positivos potenciais dos Meios de Comunicação Social. Citando João Paulo II, a autora lembra que os MCS são hoje como era o Areópago em que os gregos discutiam questões filosóficas e políticas, um grande fórum que, atuando do melhor modo, pode tornar viável a troca de informações autênticas, de idéias construtivas, de valores sadios e, desse modo, criar comunidade, tendo assim a função de unir as pessoas e enriquecer as suas vidas.

Buscando indicar um caminho para que os MCS cumpram essa função unitiva e enriquecedora da vida das pessoas, Chiara, embora fazendo a ressalva de que não é uma especialista em mídia, parte de dois dolorosos ícones da comunicação “certamente presentes em nosso imaginário”:

1) Fala da angústia de “O Grito”, obra do pintor norueguês Edvard Munch, símbolo da solidão do homem sem relacionamentos;

2) E lembra ainda da expressão de terror no rosto da pequena vietnamita Kim Phuc, colhida pelo clique casual da câmara de um repórter quando, envolta nas chamas do napalm, chorando, foge de sua terra queimada, imagem de uma humanidade-criança que já não tem raízes.

E aqui pedimos licença para voltar à meditação sobre Jesus Abandonado, porque em Chiara às vezes é impossível separar – mesmo numa análise teórica – o estritamente humano do espiritual: “Jesus crucificado e abandonado – mediador (“meio”) entre a humanidade e Deus, e que, depois de caído o último diafragma e refeita a unidade, desaparece, faz-se nada – é um mistério terrível que fascina. É um vazio infinito, como que a pupila dos olhos de Deus, janela através da qual Deus pode observar a humanidade e a humanidade, de certo modo, pode ver Deus”.

A autora prossegue afirmando que, até ali, o que acabara de dizer havia sido “apenas INTUIÇÕES PARA UMA PESQUISA SOBRE A COMUNICAÇÃO” que deveria abranger numerosas disciplinas

Aqui entra a INTERDISPLINARIEDADE E A MULTIDISCIPLINARIEDADE características e condicionais DE QUALQUER ESTUDO ATUAL SOBRE PROCESSOS COMUNICACIONAIS.

Ela aponta, então, “princípios-guia” para uma “nova comunicação”, indicando a atuação de comunicadores que têm o Amor como paradigma das relações profissionais e como modelo de comunicação:

1) O primeiro princípio seria que “comunicar é algo essencial” que deve estar ligado profundamente à vida do profissional, a qual, no caso desses comunicadores, se pauta na atitude de amar as outras pessoas como a si mesmos. Outra consideração, dentro desse mesmo princípio, seria de que “aquilo que não se comunica se perde” e que, portanto (conclusão minha), comunicar tudo – da melhor forma estética, ética e moralmente – faz parte dessa atitude amorosa para com a humanidade. Temos uma vocação, uma convocação, uma delegação, um mandato para comunicar tudo, da melhor forma, no melhor momento, de forma adequada a cada público;

2) O segundo princípio seria o de “enfatizar o positivo”, “ainda que a denúncia oportuna de erros, limites e culpas seja imperiosa para quem tem essa responsabilidade”;

3) O que importa é o homem, não o meio, que é um simples instrumento.

Lubich afirma que comunicadores com essa atitude resumida no Amor, e desdobrada nesses pricípios-guia, aprendem a:

a) entender melhor os homens e as situações;

b) fazer aquela comunicação mais verdadeira, mais profunda, mais ampla, que nem sempre se sabe fazer, na qual:

- o negativo das pessoas e das circunstâncias não é silenciado

- mas onde se dá mais ênfase ao positivo: “Porque assim é o amor: conhece a realidade, mas sabe transfigurá-la para fazer triunfar o bem nos outros”.

Especialmente para quem pode pensar ser essa uma meta impossível, declara que:

1) Grande número de profissionais estão agindo nessa linha intensamente há bastante tempo e em muitos países;

2) São (reconhece), às vezes, experiências isoladas em ambientes hostis. Porém, trata-se da construção de novos relacionamentos dentro das redações e de outras estruturas produtivas dos MCS;

3) Seriam ainda lampejos de uma nova consciência no gerir a mídia;

4) Propostas de um renovado modo de usufruir das mensagens dos MCS;

5) São episódios que podem parecer modestos mas que já valem só pelo fato de serem fruto de profunda coerência com ideais autênticos;

6) São uma semente destinada a fazer crescer lentamente uma nova cultura.

 

Antes de finalizar o discurso feito em 2000,  a autora lembra que o importante é que os meios de comunicação DEVEM SER instrumentos para realizar um mundo mais unido. E, como última reflexão entre os aspectos humanos de seu pronunciamento, enumera os RESULTADOS da realização desse “DEVER SER”. São resultados que se multiplicam a cada vez que um novo agente de comunicação passa a comprometer-se com o esforço de realizá-los:

 

1) Veremos os MCS não como invasores, mas como instrumentos aptos para aumentar a socialização do homem;

2) Teremos estruturas produtivas não dilaceradas pela competitividade;

3) A informação não instrumentalizará a dor e a intimidade das pessoas;

4) A mídia saberá empenhar-se claramente em prol dos valores autênticos e compartilháveis, ajudando o homem na sua caminhada em busca da Verdade;

5) A globalização não sufocará os povos, mas se transformará numa partilha mundial entre as civilizações e as culturas, em que todas as riquezas espirituais e materiais se tornarão patrimônio comum, sem sacrificar, mas enfatizando a singularidade de cada um, numa contínua dinâmica de unidade e distinção.

Em nosso próximo encontro, no dia 5 de agosto, refletiremos sobre os aspectos humanos do discurso Maria e a Comunicação.

Obrigado!

 

* Os três textos básicos, que norteiam a reflexão de NetOne são: 1) “O Carisma da Unidade e os Meios de Comunicação” (discurso de Chiara Lubich, Congresso Comunicação e Unidade, Roma, 2000); 2) Maria e a Comunicação (Chiara Lubich, Seminário Internacional sobre a Comunicação, Roma, 2003); e 3) O silêncio e a Palavra, a Luz (Michele Zanzucchi, Congresso Internacional de Net One, Roma, 2004).

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